Precisamente porque tudo está interligado (cfr Laudato si’ 42; 56) no bem, no amor, precisamente por isto cada falta de amor repercute em tudo. A crise ecológica que estamos enfrentando é, acima de tudo, um dos efeitos desse olhar doente sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o tempo que passa; um olhar doente que não nos faz perceber tudo como um dom oferecido para nos descobrirmos amados.

É esse amor autêntico, que às vezes chega a nós de uma maneira inimaginável e inesperada, que nos pede para rever nossos estilos de vida, nossos critérios de julgamento, os valores nos quais baseamos nossas escolhas. De fato, já é sabido que a poluição, mudanças climáticas, desertificação, migrações ambientais, consumo insustentável dos recursos do planeta, acidificação dos oceanos, redução da biodiversidade, são aspectos inseparáveis ​​da desigualdade social: da crescente concentração do poder e da riqueza nas mãos de poucos e da assim chamada sociedade do  bem-estar, dos loucos gastos militares, da cultura do descarte desperdício e de uma falta de consideração do mundo do ponto de vista das periferias, da falta de proteção das crianças e dos menores, dos idosos vulneráveis ​​e nascituros.

Soluções puramente ambientais não são suficientes

Um dos grandes riscos de nosso tempo, então, diante da séria ameaça à vida no planeta causada pela crise ecológica, é o de esse fenômeno nãos er lido como o aspecto de uma crise global, mas de nos limitarmos a procurar – embora necessárias e indispensáveis – soluções puramente ambientais.

Ora, uma crise global requer uma visão e uma abordagem global, que passam antes de tudo por um renascimento espiritual no sentido mais nobre do termo.

Paradoxalmente, as mudanças climáticas poderiam se tornar uma oportunidade para nos fazer perguntas de fundo sobre o mistério de ser criado e sobre aquilo pelo qual vale a pena viver. Isso levaria a uma profunda revisão de nossos modelos culturais e econômicos, para um crescimento na justiça e na partilha, na redescoberta do valor de cada pessoa, no empenho para que quem hoje está à margem, possa ser incluído e aquele que vier amanhã, ainda possa desfrutar do beleza do nosso mundo, que é e continuará a ser um dom oferecido à nossa liberdade e à nossa responsabilidade.

Tomar consciência de uma cultura que se impõe

A cultura dominante – aquela que respiramos por meio das leituras, encontros, entretenimento, nas mídias etc. – baseia-se na posse: das coisas, do sucesso, da visibilidade, do poder.

Quem tem muito vale muito, é admirado, considerado e exerce alguma forma de poder; enquanto aqueles que têm pouco ou nada, correm o risco de perder até mesmo o próprio rosto, porque desaparece, torna-se um daqueles invisíveis que povoam nossas cidades, uma daquelas pessoas das quais não nos damos conta ou com quem procuramos não entrar em contato. Certamente, cada um de nós é, antes de tudo vítima dessa mentalidade, porque somos de muitas maneiras bombardeados por ela.

Desde pequenos, crescemos em um mundo onde uma ideologia mercantil generalizada, que é a verdadeira ideologia e prática da globalização, estimula em nós um individualismo que se torna narcisismo, ganância, ambições elementares, negação do outro … Portanto, neste nossa situação atual, um comportamento justo e sábio, antes que a acusação ou o julgamento, é antes de tudo o da tomada de consciência.

Estruturas de pecado

Estamos envolvidos, de fato, em estruturas de pecado (como São João Paulo II a chamou) que produzem o mal, poluem o meio ambiente, ferem e humilham os pobres, favorecem a lógica da posse e do poder, explorando os recursos naturais de maneira exagerada, obrigando populações inteiras a abandonar suas terras, alimentam o ódio, a violência e a guerra. Trata-se de uma tendência cultural e espiritual que distorce nosso senso espiritual que vice-versa – em virtude de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus – naturalmente nos direciona ao bem, ao amor e ao serviço aos outros.

Redescobrir-se pessoas pertencentes a uma só família

Por essas razões, o ponto de virada não poderá vir simplesmente do nosso esforço ou de uma revolução tecnológica: sem negligenciar tudo isso, precisamos redescobrir-nos pessoas, isto é, homens e mulheres que reconhecem serem incapazes de saber quem são sem os outros, e que se sentem chamados a considerar o mundo à sua volta não como um objetivo em si, mas como um sacramento da comunhão. Dessa maneira, os problemas de hoje podem se tornar autênticas oportunidades  para que possamos nos descobrir verdadeiramente como uma única família, a família humana.

O perdão para superar a crise ecológica

Enquanto tomamos consciência de que estamos perdendo o objetivo, que estamos priorizando o que não é essencial ou até mesmo o que não é bom e faz mal, pode nascer em nós o arrependimento e o pedido de perdão. Eu sinceramente sonho com um crescimento da consciência e de um sincero arrependimento de todos nós, homens e mulheres do século XXI, crentes e não crentes, de nossas sociedades, por nos deixarmos levar por lógicas que dividem, provocam fome, isolam e condenam. Seria belo se nos tornássemos capazes de pedir perdão aos pobres, aos excluídos; então nos tornaríamos capazes de nos arrepender sinceramente também do mal feito à terra, ao mar, ao ar, aos animais …

Pedir e perdoar são ações possíveis apenas no Espírito Santo, porque é Ele o artífice da comunhão que abre os fechamentos dos indivíduos; e é necessário muito amor para deixar de lado o próprio orgulho, para perceber que cometeu um erro e para ter esperança de que novos caminhos sejam realmente possíveis.

O arrependimento, portanto,  para todos nós, para a nossa época, é uma graça a ser implorada humildemente ao Senhor Jesus Cristo, para que essa nossa geração possa ser recordada na história não por seus erros, mas pela humildade e a sabedoria de ter sabido reverter a rota.

Recomeçar a partir dos relacionamentos, a inovação tecnológica não é suficiente

O que estou dizendo talvez possa parecer idealista e pouco concreto, enquanto aparecem mais caminhos viáveis que visam desenvolver inovações tecnológicas, a redução no uso de embalagens, o desenvolvimento de energia a partir de fontes renováveis ​​etc. Tudo isso é, sem dúvida, não apenas um dever, mas necessário. No entanto, não é suficiente.

A ecologia é ecologia do homem e de toda a criação, não apenas de uma parte. Assim como para uma doença grave o remédio por si só não é suficiente, mas é necessário olhar para o doente e entender as causas que levaram ao aparecimento do mal, assim analogamente a crise de nosso tempo deve ser enfrentada em suas raízes. O caminho proposto consiste, então, em repensar nosso futuro a partir das relações: os homens e as mulheres de nosso tempo têm tanta sede de autenticidade, de rever sinceramente os critérios da vida, de apostar naquilo que vale a pena, reestruturando a existência e a cultura.

Radio Vaticano